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A triste vida do gato Labareda

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Luciano Correia (**)

Costumo chamá-lo de Labareda, um gatinho ainda adolescente, em fase de crescimento, mas valente como o pai e o avô, que também viveram nas cercanias da minha casa. O avô, da mesma cor de ouro, era um animal no sentido estrito. Vivia pra guerrear. Brigão e batedor, como todo valente, também apanhava. Por isso, vivia com a cara latanhada, cheia de arranhões e feridas. Como os matadores de aluguel e valentões em geral, morreu cedo, de briga, claro. O pai foi a mesma coisa. Sumiu sem deixar rastro. Busquei notícias na Rádio Corredor do condomínio, mas nenhum dos informantes soube dar conta de seu paradeiro. O neto, este aí, o Labareda, seguia a mesma trilha do macho alfa, mas com certa doçura no olhar e um jeito carente de pedir atenção. A lei das ruas é cruel e o mundo trata mal a todos, de homens a animais.

Além do meu Tom, animalzinho que me ensinou o sentimento da compaixão e a compreender a dor dos que sofrem, cuido de mais 11 gatos que já estão acordados quando acordo, todos os dias, religiosamente, aí pelas quatro ou cinco horas. Traduzindo em custos: é um saco de ração de 10 kg a cada 15 dias, a 100 reais cada, que gasto com satisfação, porque sou pago com a alegria/algaravia que os 11 me retribuem toda vez que balanço a lata, três vezes ao dia. Labareda é um deles. Encrenqueiro, gasta mais tempo nas querelas com os colegas do que propriamente em comer. Um gênio ruim, diriam uns.

Meu condomínio é um microcosmo da pior sociedade que este país revelou nos últimos quatro anos, salvo por uma ou outra exceção. Gostam do fato de não haver ratos infernizando armários e cozinhas, mas ignoram que são os gatos os guardiões de sua tranquilidade. Ignoram também que os bichinhos precisam comer. Ninguém dá de comer aos bichanos, salvo uma ou outra dona de casa mais comovida que despeja restos de almoços na calçada (do vizinho), cumprindo muito mais um desejo de se livrar do lixo caseiro do que uma ação caridosa.

Hoje cedo dei com Labareda desfigurado, sem um olho, gemendo e respirando com dificuldade. Não sei se foi atropelado ou se cometeram alguma violência contra ele. Aqui, as duas ocorrências são comuns, somadas ao nefasto e criminoso uso de chumbinho, que de vez em quando nos faz topar com gatos mortos nos gramados, rijos, de olhar petrificado, como a duvidar de tanta crueldade humana. Tentei dar um leite e um pouco de ração, mas ele se manteve impassível, gemendo de dor e exibindo uma melancolia de cortar coração. Depois, com dificuldade, foi se abrigar num cantinho e deitar pra morrer, como fizeram outros gatinhos cuja vida e calvário eu acompanhei como distante tutor. A essa altura, diante de tanto sofrimento, prefiro recomendá-lo a São Francisco de Assis. Quem sabe em outro mundo sua vida seja mais leve.

Observação:  Esse texto foi escrito na tarde do domingo. Na madrugada desta segunda, encontrei Labareda na minha varanda. Ele não resistiu e finalmente descansou de sua vida infeliz neste mundo dos homens.

 

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(*) Jornalista e presidente da Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju).

 

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Luciano Correia

Jornalista e professor da Universidade Federal de Sergipe

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