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Inventando novos jogos de guerra

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

No livro do profeta Jeremias, está escrito: “Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor” (17,5). Nada como esta assertiva bíblica, do Antigo Testamento; é tão atual, se considerarmos mais um momento bélico que vive a humanidade à custa, mais uma vez, de vítimas inocentes, sobretudo, crianças e pobres.

Ao passo que nos últimos anos, conflitos estouraram por toda parte, aumentando as possibilidades de uma nova e terceira guerra mundial. Atrás de uma mesa está, como nos lembra Renato Russo (1960-1996) em “Faroeste Caboclo”, “um general de dez estrelas” (1987), cães sedentos por lucros, glórias e honras, levando jovens vidas para o campo de batalha, alienados por ideologias mortais e por joguinhos de guerra, abrindo mão do sagrado direito de existir, viver e envelhecer.

O poeta e cantor carioca realmente tinha e segue tendo razão: “O senhor da guerra não gosta de criança”. Como vocalista e líder da banda Legião Urbana, por quatorze anos, Renato Russo traduziu de forma precisa os horrores e contradições dessa gente que inventa pretextos diversos para soltar suas bombinhas, levando nações e povos à destruição, à fome e à miséria, alimentando uma das indústrias mais poderosas e nocivas do mundo, a armamentista.

Certamente, a canção o “Senhor da Guerra” (1992) é uma das mais conhecidas, com uma narrativa e melodia consistentes e argumentos que põem por terra qualquer justificativa que se mantenha um estado belicoso em qualquer parte do mundo. Desde o discurso de que a nação precisa de você, espera por você, às seduções dos algozes, com “uniformes lindos”, no afã de convencer a juventude a se alistar, até porque “Deus está do lado de quem vai vencer”. Do lado oposto, com as mesmas ilusões: “O inimigo você espera / Ele estará com outros velhos / Inventando novos jogos de guerra”.

Definitivamente, como nos lembra Russo, o senhor da guerra não gosta de crianças. Dados oficiais das Nações Unidas dão conta de atestar (pelo menos é o que se sabe) que, desde 2022, quando a escalada de guerra no mundo aumenta consideravelmente, mais de 600 delas foram mortas e outras mais de 1000 feridas, algumas gravemente. Sem falar em milhões que ficam sem oportunidade de escolarização. Hospitais e zonas urbanas são atingidas sem nenhum pudor, porque até mesmo os códigos de guerra de outros tempos não são mais levados em conta, desde que o fim seja destruir os inimigos.

E assim tem sido na Ucrânia, na Rússia, em Mianmar, na região do Sahel, em Israel, no Líbano, na Palestina, no Azerbaijão, na Armênia, em Nagorno-Karabakh, na Síria, no Iêmen, em Mali, no Paquistão, nas redes sociais, “(…) nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado” (Que país é esse? – Legião Urbana, 1987).  Loucos, fardados ou não, os senhores da guerra invocam a soberania nacional, justificam o armamento das pessoas, investem bilhões em tecnologia bélica e põem em risco a própria existência humana.

Tiranos, teocratas, tecnocratas, ditadores e democratas, magnatas, comunistas, socialistas, capitalistas, tudo farinha do mesmo saco: guerra! Ao fim e ao cabo, todos os poderosos sentirão sobre seus cadáveres o peso da mãe terra, encarniçados por misérias e pecados, com suas memórias enodoadas de sangue inocente, enquanto seus milhões seguem de mão em mão, patrocinando mais guerra, mais carnificina, destruição, medo e caos. Malditos sejam para toda a eternidade, estes canalhas e cretinos senhores da guerra!

 

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Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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