Outras palavras

Maria (De)Alves — o estrelato discreto de um grande talento sergipano

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Esta semana, eu e minha esposa demos início a uma nova maratona de novelas antigas. Hábito que cultivamos há algum tempo, dado que as de hoje em dia não têm a mesma criatividade, entretenimento e carga dramática das que eram produzidas, pelo menos, até os anos 90. Até então, preferíamos, como historiadores de formação e docência de ofício, às chamadas de época, tais como, a mais recente, o remake de “Cabocla” (2004), com o inesquecível personagem de Tony Ramos, o capitão Boanerges.

Desta feita, optamos por uma história mais contemporânea. E, numa busca aqui, outra ali, encontramos a segunda versão de “Selva de Pedra” (1986), de Janete Clair (1925-1983). Logo de cara, chamou a nossa atenção a trilha sonora e, de imediato, nos reportamos ao primeiro ano de nossa amizade, ela com 11 anos e eu com 12. Refiro-me, de modo particular, à música tema da novela, “Demais, com Verônica Sabino, uma versão em português, Zé Rodrix Miguel Paiva, de um dos grandes sucessos dos Beatles (Yes it is, 1965). Entre os protagonistas, novamente ele, o genial e versátil ator, Tony Ramos, que ao contrário do cômico e bonachão Boanerges, agora interpretando o jovem ambicioso e problemático, Cristiano Vilhena.

Mas, a grande satisfação desta novela está sendo a de prestigiar um dos trabalhos da atriz e cantora sergipana, Maria Alves, cuja trajetória de vida e carreira pude conhecer mais de perto, graças a uma excelente dica de leitura do poeta Assuero Cardoso Barbosa, principal fonte do presente texto: “Maria Alves – Maria de Lagarto, do Rio e do Brasil”, um dos capítulos do livro “Dez Vidas, meu olhar sobre as mulheres”, de autoria do saudoso ator lagartense Lino Corrêa (1959-2020), publicado em 2015, pela editora Altadena.

Em “Selva de Pedra” (1986), ela faz um papel discreto, Maria, vizinha do par romântico do personagem de Tony Ramos, a Simone, interpretada por Fernanda Torres. Nos créditos, Maria Alves aparece como participação especial, ao lado de nomes consagrados, como Othon Bastos, Raul Gazolla, Jonas Bloch, Paulo Villaça, entre outros. Aliás, no que se refere à fama ou ao oba-oba de nosso tempo, Maria Alves sempre foi discreta, mas isso não impediu que ela brilhasse no panteão da Rede Globo de Televisão.

Lino Corrêa e Regina

Maria Alves – Maria de Lagarto, do Rio e do Brasil” (pp. 95-118), Lino Corrêa lança novas uma quase desconhecida (para não dizer, completamente) em sua cidade natal, Lagarto. Ali, veio ao mundo no dia 7 de novembro de 1947. Por meio de sua amizade com Maria, que nasceu nos bastidores de uma participação de ambos num especial de Roberto Carlos, de 1991, ficamos sabendo que era filha de Regina Alves de Jesus e de Ezequiel dos Santos, moradores, à época da rua do Asilo Santo Antônio, Rua Manoel de Paula Menezes Lima. Lino a encontrou, em Lagarto, naquele mesmo ano, fazendo, inclusive, um registro fotográfico que está no corpo desta matéria. Esta lhe confidenciou que, muito pobre, teve que doar Maria Alves, ainda bebê, para um casal de Niterói, onde ela foi criada.

No retorno ao Rio de Janeiro, Lino deixou Maria a par da descoberta, no que ela ficou deveras emocionada, sobretudo ao ver as fotos que ele fez de sua genitora. O trabalho é bom, mas deixa algumas lacunas que precisam ser preenchidas, como por exemplo: ela se reencontrou com a mãe natural? Esteve em Lagarto para revê-la/conhecê-la, já que saiu de Sergipe tão novinha? Quem era o pai de João Bastos, seu único filho, músico flautista, naturalizado suíço? Este, aliás, em depoimento, no livro, sobre sua mãe, assim se refere: “(…) foi uma guerreira que nunca desistiu dos seus sonhos. Enfrentou obstáculos e sempre sobressaiu. Uma artista de primeira que sempre foi respeitada pelos seus colegas de trabalho…” (p. 117).

A propósito destes colegas de trabalho, Lino traz dois depoimentos. O primeiro é do ator Milton Gonçalves (1933-2022), logo no início do capítulo. Milton é um dos maiores atores negros que a história da dramaturgia já teve, sobre Maria Alves, com quem contracenou em alguns trabalhos da TV Globo, conversavam exatamente sobre a afirmação do negro nas artes, sobretudo na televisão (p. 97). Maria Alves, além desta luta, sendo ela, também, uma mulher negra de origem humilde e sergipana, também militava na campanha contra os maus tratos de animais. Segundo Lino, era uma mulher sensível e espiritualista: “(…) A gente mergulhava nessa incessante troca de aprendizado das lições divinas”. O ator foi criado numa família presbiteriana tradicional, mas sempre teve um espírito libertário e artístico, com o qual dividia sua profissão de odontólogo.

No que se refere à carreira, encontrei diversas informações a respeito, tendo ela atuado em dezenas de novelas e filmes e em algumas peças de teatro, neste caso, com destaque para a “Ópera do malandrado” (1979), um musical dirigido por Luís Antônio Martinez Corrêa, baseada na obra do cantor Chico Buarque. Maria Alves fez o papel de Jussara Pé de Anjo, no qual ele teve a oportunidade de apresentar, para além do talento de atriz, também a de exímia cantora. Na TV, destaque para “Xica da Silva” (TV Manchete, 1996), onde fez Rosa, ao lado de Zezé Motta, e “Felicidade” (TV Globo, 1991), onde fez o papel de Maria, mãe da personagem Antônia Batista, a Tuquinha, interpretada por Maria Ceiça, que também dá um depoimento no livro de Lino, onde diz:

“(…) Maria como minha mãe na novela Felicidade, tive o privilégio de ser amada por ela como uma filha de verdade. (…) Lembro das nossas gargalhadas juntas, da alegria dela, da nossa parceria no trabalho e das confidências femininas trocadas pela atriz experiente com uma novata que chegava ao mundo artístico” (p. 116).

Esperamos que este texto possa despertar em outros, como já o fez a mim, a necessidade de aprofundarmos um pouco mais sobre sua trajetória de vida e artística, na esperança, que Sergipe, mais de perto sua cidade natal, possa um dia lhe prestar uma justa homenagem. Discreta em cena, estrela nos palcos e na TV, gigante na vida, e, novamente discreta na morte, aos 60 anos, no dia 8 de maio de 2008, na cidade do Rio de Janeiro, vítima das complicações de um câncer de pele. Nasceu Maria, brilhou como Maria Alves e estrelou para eternidade como Maria Dealves.

 

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Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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